O Trabalho em a chave estrela

Esta região sem limites, a região da labuta, do CURRO, do BOULOT, do JOB, enfim, do trabalho cotidiano, é menos conhecida que a Antártida e, por um triste e misterioso fenômeno, acontece que os que mais falam dela, e com maior entusiasmo, são precisamente aqueles que menos a percorreram.
Para exaltar o trabalho, nas cerimônias oficiais se mobiliza toda uma retórica insidiosa, cinicamente fundada nas considerações que um elogio ou uma medalha rendem mais e custam menos que uma melhora salarial.
Porém existe também uma retórica de sinal contrário, não cínica mas profundamente estúpida, que tende a denegri-lo, a pintá-lo como algo vil, como se fosse possível prescindir do trabalho, próprio ou alheio, e não somente como uma utopia, mas também no aqui e agora.
Como se aquele que sabe trabalhar fosse um servo, e como se, ao contrário, quem não trabalhar ou trabalhasse mal, ou que não quisesse trabalhar, fosse por essa mesma razão um homem livre.
É tristemente verdade que muitos trabalhos não são agradáveis, porém é muito prejudicial entrar no debate carregado de preconceitos e de ódio. Quem o faz se condena por toda a vida a odiar não só o trabalho, mas também a si mesmo e ao mundo. Pode-se e deve-se lutar para que o fruto do trabalho permaneça nas mãos de quem o realiza, e para que o trabalho como tal não seja apenas um puro penar; porém o amor, como também o ódio em relação à obra são um dado interno, originário, que depende mais da história do indivíduo do que das estruturas produtivas em cujo torvelinho se desenvolve o trabalho.
La llave estrella, de Primo Levi, Muchnik editores 2001 Barcelona, pgs 77 e 78.Tradução Giuseppe La Barbera e Elias Stein.