Qualificação Social
Educação e Reconhecimento Social e Profissional:
as necessidades sociais - coletivos de trabalhadores
O Rancho da Goiabada
(Aldir Blanc e João Bosco )
Os bóias-frias quando tomam
Umas biritas espantando a tristeza
Sonham com bife a cavalo, batata frita
E a sobremesa
É goiabada-cascão, com muito queijo
Depois café, cigarro e um beijo de uma mulata
Chamada Leonor, ou Dagmar
Amar, o rádio de pilha, o fogão jacaré
A marmita, o domingo, o bar
Onde tantos iguais se reúnem contando mentira
Pra poder suportar,
São pais-de-santos, paus-de-araras
São passistas
São flagelados, são pingentes, balconistas
Palhaços, marcianos, canibais, lírios, pirados
Dançando dormindo de olhos abertos
À sombra da alegoria
Dos faraós embalsamados
O processo de reconhecimento social e profissional, bem como a elaboração de percursos formativos para a educação profissional passam pelo atendimento de uma escala de diferentes necessidades que se estende da sobrevivência física dos trabalhadores ao domínio dos saberes científicos que fundamentam uma profissão. O mapeamento das necessidades dos coletivos de trabalhadores fortalece a reivindicação de uma qualificação profissional na perspectiva de emancipação dos trabalhadores, da negociação das relações de trabalho e da gestão de políticas públicas voltadas ao atendimento destas necessidades.
O gráfico, a seguir, representa as necessidades sociais da qualificação profissional na forma de pirâmide, o que nos permite visualizar melhor o conjunto destes aspectos, organizados em cinco níveis:

É com relação às necessidades diversas dos coletivos de trabalhadores que se coloca a busca pelo reconhecimento e educação social e profissional.
O processo de reconhecimento social e profissional
A pirâmide dos fatores a serem considerados na Qualificação Social e Profissional não deve ser vista como uma estrutura que hierarquize as dimensões sociais da qualificação profissional ou que lhes atribua determinada cronologia de aparecimento, mas como um recurso didático que permita compreendê-las na sua especificidade e de maneira integrada.
O processo de reconhecimento social e profissional de saberes dos trabalhadores está centrado no atendimento de suas necessidades, das mais individuais às mais coletivas, e pressupõe ações que visam ampliar o máximo possível a educação destes trabalhadores. Neste sentido, ela é diametralmente oposta aos modelos que centram a formação profissional nas demandas dos processos produtivos ou da organização do trabalhol, estruturados pelo “saber”, o “saber fazer” e o “saber ser”, dimensões que transferem aos indivíduos a responsabilidade pelo suprimento das necessidades produtivas em detrimento das suas próprias necessidades.
A explicitação das necessidades dos trabalhadores pode vir a ser bastante útil para a criação de instrumentos de avaliação e validação de conhecimentos, na elaboração de currículos de cursos da educação profissional e na identificação dos aspectos sociais presentes em um percurso formativo, representados na pirâmide.
Em um percurso formativo completo, o processo de reconhecimento social e o curso de qualificação social e profissional devem avançar do atendimento das necessidades relativas à sobrevivência ao atendimento das necessidades, indicadas pelos trabalhadores, de aprofundamento teórico e prático. O ideal seria que o atendimento às diferentes necessidades identificadas na pirâmide fosse permanente, e que apenas houvesse variação na sua intensidade ao longo do processo de reconhecimento ou do curso de educação social e profissional.
1. Sobrevivência física
O primeiro fator a ser considerado, o mais básico e fundamental, é o da sobrevivência imediata.
O trabalhador quando não usufrui boas condições de saúde ou está inseguro com relação à preservação de sua vida ou a de seus familiares dá prioridade às informações e atividades que visem a satisfazer suas carências básicas e urgentes.
Nessa direção, visando criar condições objetivas para o atendimento de tais necessidades, as políticas públicas de formação e certificação profissional devem estar integradas às políticas públicas de desenvolvimento local, regional e nacional e ao sistema público de emprego. Além disso, é preciso que haja programas de bolsas e auxílios para o atendimento emergencial dos trabalhadores em situação de risco.
2. Reconhecimento profissional
Um segundo aspecto, consiste na necessidade de pertencimento a uma profissão, de uma identidade compartilhada com outros trabalhadores reconhecidos socialmente e no saber fazer profissional. Esta necessidade dificilmente se apresenta quando as necessidades de sobrevivência física ainda não estão satisfeitas.
A identidade profissional do trabalhador passa por conhecer o valor social, a origem, a história e as perspectivas para sua profissão.
Neste aspecto, o reconhecimento da qualificação do trabalhador implica em atentar para a sua trajetória de vida e trabalho, conhecer sua “dinâmica” profissional, situando-a no âmbito das transformações mais amplas na organização do trabalho e da produção.
O reconhecer-se e o valorizar-se como trabalhador, enquanto produtor de riquezas, como responsável por atividades de importância para a sociedade, propicia-lhe motivação para desenvolver percursos formativos mais longos, contribuindo para que permaneça e conclua os cursos iniciados.
3. Reconhecimento social
Este aspecto diz respeito ao valor que a sociedade como um todo atribui ao profissional, e que varia historicamente nos diferentes espaços das diversas sociedades.
O reconhecimento social dos saberes do trabalhador supõe responder às suas necessidades de auto-respeito e auto-estima, condições fundamentais para o fortalecimento da identidade profissional.
O fato de pertencer a uma categoria profissional importante socialmente viabiliza, com mais frequência, a participação em coletivos de organização local. A relação com o sindicato favorece, por outro lado, sua presença em uma associação de bairro, um time de futebol, etc. O incentivo à organização dos trabalhadores em locais de trabalho e moradia consiste, também, em estratégia política de fortalecimento desses espaços coletivos de mobilização e intervenção social, pressuposto para vigência da negociação das políticas de formação e certificação profissional.
4. Reconhecimento cultural
O quarto aspecto a ser considerado corresponde ao reconhecimento cultural do trabalhador, de sua relação com o conhecimento, de seus saberes, as lendas, os mitos, a literatura, a arte, a poesia, a música, e outras dimensões de seu universo cultural e do trabalho, eixo orientador da organização e desenvolvimento das metodologias de ensino-aprendizagem dirigidas a adultos trabalhadores.
5. Reconhecimento técnico e científico
Por fim, o quinto aspecto diz respeito aos fundamentos científicos e aos conhecimentos técnicos específicos de uma profissão, e que correspondem às necessidades do trabalhador de compreender plenamente os princípios gerais de sua atividade de trabalho e da vida social.
Neste nível, a qualificação social e profissional deve atender as necessidades de especialização e domínio conceitual requeridas na utilização de instrumentos específicos e no exercício de atividades profissionais mais qualificadas.
6. Tabela 1 - Classificação dos fatores que incidem na Qualificação e Reconhecimento Social e Profissional
1. Condições de alimentação, saúde e segurança
11 - necessidade de alimentação adequada;
12 - necessidade de boas condições de saúde;
13 - necessidade de segurança e preservação da vida;
14 - necessidade de seguridade pessoal e familiar;
15 - necessidade de preservação do meio-ambiente.
2. Origem, história, relevância e contexto social da profissão
21 - necessidade de identidade profissional;
22 - necessidade de conhecer a época e o contexto de origem da profissão;
23 - necessidade de identificar as mudanças nas formas e organização do trabalho;
24 - necessidade de conhecer o perfil de formalidade ou informalidade da profissão;
25 - necessidade de conhecer as formas e alternativas de emprego;
26 - necessidade de conhecer as diferenças regionais, sazonais e setoriais da profissão;
27 - necessidade de conhecer a expectativa de vida da profissão;
28 - necessidade de conhecer as opções de mobilidade e mudança para outras profissões.
3. Coletivos de trabalho e organização social
31 - necessidade de pertencimento a um coletivo;
32 - necessidade de valorização e respeito;
33 - necessidade de auto-respeito e auto-estima;
34 - necessidade de a sociedade reconhecer e valorizar a profissão;
35 - necessidade de organização coletiva no local de trabalho;
36 - necessidade de participar da concepção, direção e gestão do seu trabalho;
37 - necessidade de organizar sindicatos de trabalhadores da profissão;
38 - necessidade de organizar conselhos ou ordens profissionais.
4. Cultura, sabedoria e conhecimento não utilitário
41 - necessidade de satisfazer a curiosidade;
42 - necessidade de satisfazer a fome de conhecimento;
43 - necessidade de realizar leituras do mundo e da vida;
44 - necessidade de lidar com diferentes domínios de linguagens;
45 - necessidade de expressão.
5. Conhecimento científico, técnico, capacidade prática e experiência profissional
51 - necessidade de conhecer os fundamentos científicos da profissão;
52 - necessidade de conhecimento técnico específico;
53 - necessidade de desenvolver a capacidade de utilização dos instrumentos;
54 - necessidade de desenvolver a capacidade de utilização de técnicas específicas;
55 - necessidade de desenvolver a capacidade de planejamento do trabalho;
56 - necessidade de desenvolver a capacidade de coordenar o seu trabalho com outros;
57 - necessidade de tempo para desenvolver sua experiência profissional.
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